
Neste 7 de abril, o maior tributo ao jornalista não é apenas o aplauso. É a compreensão de que seu trabalho continua sendo uma trincheira democrática!
Neste 7 de abril, data em que o Brasil celebra o Dia do Jornalista, a homenagem não deve ser apenas protocolar. Ela precisa ser também um chamado à responsabilidade histórica. A data está ligada à tradição de defesa da liberdade de imprensa no país, associada à memória de Líbero Badaró e ao próprio percurso da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), fundada em 7 de abril de 1908. Mais do que uma comemoração, portanto, este dia nos convida a refletir sobre a missão pública do jornalismo em tempos de radicalização, ataques à informação e disputa organizada pelas consciências.
No Brasil de hoje, o jornalista não atua apenas num ambiente de divergência política normal, como seria próprio da democracia. Atua, sobretudo, num terreno contaminado por campanhas de desinformação, por versões fabricadas da realidade, por manipulações emocionais e por um negacionismo que não se limita mais à ciência, mas avança sobre a história, sobre as instituições e sobre os próprios fatos. Nesse contexto, o jornalismo comprometido com a verdade deixa de ser apenas uma profissão: torna-se um serviço essencial à democracia.
É justamente aí que se destaca o papel do jornalismo progressista. E aqui é importante fazer uma distinção necessária: ser progressista não significa ser panfletário, nem servir cegamente a partidos, governos ou lideranças. Um jornalismo progressista, em seu sentido mais nobre, é aquele que se orienta pela defesa intransigente da dignidade humana, dos direitos sociais, da justiça, da inclusão, da pluralidade e do fortalecimento democrático. Ele não renuncia à apuração rigorosa. Ao contrário: depende dela. Não relativiza os fatos para agradar bolhas ideológicas. Pelo contrário: reafirma que sem fatos não há debate público honesto.
Num país ferido pela desigualdade histórica, por violências simbólicas e concretas, por preconceitos estruturais e por frequentes surtos de autoritarismo, o jornalismo progressista precisa ter lado, sim: o lado da verdade verificável, o lado da democracia e o lado da sociedade contra toda forma de obscurantismo. Isso não é militância irresponsável. Isso é compromisso ético.
O negacionismo contemporâneo não se apresenta mais apenas como ignorância. Muitas vezes ele se veste de estratégia política. Ele produz confusão para enfraquecer consensos básicos. Ele semeia dúvida onde há evidência. Ele transforma mentira em método, suspeita em linguagem cotidiana e agressividade em instrumento de mobilização. Em um ambiente assim, o jornalista passa a ser pressionado não apenas a informar, mas a resistir. Resistir ao linchamento digital, à intimidação, à caricatura de seu trabalho e à tentativa constante de desmoralizar toda mediação profissional entre o fato e o público.
Por isso, o profissional comprometido com um jornalismo progressista não pode cair em duas armadilhas. A primeira é a neutralidade covarde, aquela que coloca no mesmo plano a verdade apurada e a mentira deliberada, como se toda narrativa tivesse o mesmo valor. A segunda é o sectarismo, que transforma a notícia em mera peça de confirmação ideológica. Entre uma e outra, existe o caminho mais difícil — e mais digno: o da independência crítica com responsabilidade social.
Num cenário de polarização extrema, essa postura exige coragem. Exige recusar a lógica do “nós contra eles” como única forma de comunicar. Exige denunciar abusos, venham de onde vierem. Exige compreender que a democracia não se fortalece com silêncio diante do erro, mas também não se constrói com histeria permanente. Exige ainda traduzir temas complexos para a população, sem elitismo, sem arrogância e sem submissão aos algoritmos que premiam o escândalo e punem a reflexão.
O jornalista progressista precisa, hoje, ser também um educador público. Não no sentido doutrinário, mas no sentido cívico. Seu trabalho deve ampliar a capacidade de compreensão da sociedade sobre os temas que moldam a vida nacional: economia, direitos, saúde, educação, meio ambiente, cultura, representação política, manipulação digital e memória histórica. Informar bem é devolver ao povo a possibilidade de pensar com autonomia.
Isso se torna ainda mais urgente quando parte da polarização brasileira se alimenta justamente da recusa em compreender a complexidade. Há grupos que já não buscam informação, mas validação emocional. Já não querem ser confrontados com a realidade, mas embalados por narrativas confortáveis. E é exatamente nesse ponto que o jornalismo sério incomoda: porque ele quebra encantamentos, desmonta farsas e lembra que a realidade continua existindo, mesmo quando uma bolha digital tenta escondê-la.
Celebrar o Dia do Jornalista, portanto, é reconhecer que ainda há profissionais que insistem em apurar, contextualizar, confrontar versões, ouvir diferentes fontes e defender a inteligência do público. É reconhecer que a democracia depende dessa gente. E é também lembrar que, sem imprensa livre, crítica e socialmente comprometida, a política degenera em propaganda, o debate público vira espetáculo e o cidadão se transforma apenas em alvo de manipulação.
O Brasil precisa de jornalistas que não tenham medo de nomear a mentira, de enfrentar o negacionismo e de recusar a banalização do ódio como método político. Precisa de profissionais que saibam que a verdade nem sempre agrada, mas continua sendo indispensável. Precisa de um jornalismo que não se ajoelhe nem diante do poder econômico, nem diante do poder político, nem diante das patrulhas ideológicas das redes.
Neste 7 de abril, o maior tributo ao jornalista não é apenas o aplauso. É a compreensão de que seu trabalho continua sendo uma trincheira democrática. E, no caso do jornalismo progressista, essa trincheira não se ergue para dividir o país, mas para impedir que ele seja definitivamente capturado pela mentira, pelo medo e pela barbárie.