
A visualização nas redes sociais nos faz deparar, no mais das vezes, com um sem-fim de comentários inúteis, que têm contaminado a sociedade, e são expressos por pessoas que, recentemente, foram nominados de "malucos na frente dos quartéis".
Ultimamente a palavra perdeu peso — e, paradoxalmente, nunca foi tão abundante. Basta um deslizar de dedo nas redes sociais para nos depararmos com um oceano de comentários vazios, opiniões sem lastro e certezas fabricadas. Não se trata apenas de divergência — que é saudável e necessária à democracia —, mas da proliferação de narrativas que nada constroem, nada esclarecem e, pior, nada pretendem compreender.
É a era da inutilidade discursiva. - Uma inutilidade que não é ingênua. Ela é, muitas vezes, organizada, repetida e amplificada. Ganha forma em frases de efeito, em slogans simplistas e em repetições quase litúrgicas de ideias que dispensam reflexão. E assim, o ruído substitui o pensamento. Nesse cenário, surgem figuras que se tornaram símbolo desse fenômeno — indivíduos que, movidos por crenças impermeáveis ao diálogo, passaram a ocupar espaços públicos e digitais com discursos desconectados da realidade. Foram, em determinado momento, identificados como “os malucos na frente dos quartéis”. Mas reduzir o fenômeno à caricatura é um erro confortável.
O problema não está apenas neles. Está na estrutura que permite que a irracionalidade se normalize. Está na tolerância social ao absurdo. Está na ausência de filtros críticos que, outrora, separavam opinião de delírio. A narrativa inútil prospera porque encontra terreno fértil: uma sociedade cansada, fragmentada e, muitas vezes, desinformada. Uma sociedade que, diante da complexidade do mundo, prefere respostas simples — ainda que falsas — a perguntas difíceis — ainda que necessárias. Mas toda narrativa inútil cobra um preço. Ela corrói o debate público. Enfraquece as instituições. Deseduca o cidadão. E, pouco a pouco, transforma o espaço coletivo em um campo de eco, onde não se busca a verdade, mas apenas a reafirmação das próprias crenças. O mais perigoso não é o grito do absurdo. É o silêncio da razão diante dele. Se nada for contraposto, se nenhuma voz se erguer com lucidez, a inutilidade deixa de ser ruido e passa a ser norma. E quando o inútil se torna norma, o essencial desaparece. Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja combater opiniões divergentes, mas resgatar o valor do pensamento. Pensar exige esforço. Exige dúvida. Exige responsabilidade. E, sobretudo, exige coragem — a coragem de não repetir, de não simplificar, de não ceder ao conforto da narrativa pronta. Porque, no fim, não é a narrativa inútil que mais nos ameaça. É a nossa disposição em aceitá-la.