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Quem Pagará o Pato?

Corrupção, Negacionismo e o Peso Invisível sobre a Sociedade

Redação Folha Pantanal
Por: Redação Folha Pantanal Fonte: Adelino Alexandre Lopes - literato - Projeto #ecosdecidadania
09/03/2026 às 09h08
Quem Pagará o Pato?
Adelino Alexandre Lopes - Literato - projeto #ecosdecidadania

Em tempos de escândalos recorrentes, desvio de verbas públicas e discursos negacionistas que distorcem a realidade, uma pergunta emerge inevitavelmente no imaginário coletivo: no colo de quem, afinal, caem os escândalos da República? A resposta, embora simples, é profundamente desconfortável: quase sempre no colo da própria sociedade.

A corrupção raramente se apresenta de forma abstrata. Ela não é apenas um crime administrativo ou uma irregularidade contábil. A corrupção é, sobretudo, uma transferência silenciosa de sofrimento. Quando recursos destinados à saúde são desviados, o resultado não é apenas um número em uma planilha — é um hospital sem leitos. Quando verbas da educação desaparecem, não é apenas o orçamento que se altera — é o futuro de uma geração que se encurta. O dinheiro público, quando desviado, não evapora. Ele muda de endereço. Sai do espaço coletivo e passa a alimentar interesses privados. O que se perde não é apenas capital financeiro; perde-se confiança institucional, dignidade social e esperança democrática. Entretanto, o problema não termina na corrupção material. Ele se agrava quando se soma a outro fenômeno igualmente corrosivo: o negacionismo político e social. Negar fatos, relativizar evidências ou transformar a mentira em instrumento de disputa ideológica produz um ambiente onde a verdade passa a ser negociável. Nesse cenário, o debate público deixa de ser um espaço de construção racional e transforma-se em um campo de batalha narrativo, onde o objetivo não é compreender a realidade, mas dominar a percepção coletiva. Quando isso acontece, a sociedade passa a viver em uma espécie de neblina moral e informacional. Os escândalos deixam de gerar indignação proporcional porque rapidamente são substituídos por novas narrativas, novas polêmicas e novas distrações. O resultado é um fenômeno perigoso: a banalização da corrupção. A repetição constante de escândalos produz um efeito psicológico perverso. Aos poucos, o cidadão passa a acreditar que a corrupção é inevitável, quase uma característica estrutural da política. Esse pensamento, aparentemente resignado, é extremamente útil para aqueles que se beneficiam do sistema, pois transforma a indignação em apatia.

Quando a indignação morre, a impunidade encontra terreno fértil. - Nesse contexto, a balança da justiça — símbolo clássico da equidade — torna-se frequentemente objeto de disputa narrativa. Para alguns, ela pesa mais sobre determinados grupos; para outros, pesa menos sobre aqueles que possuem poder econômico ou influência política. Independentemente da perspectiva ideológica, o fato é que a percepção de seletividade judicial corrói profundamente a confiança pública nas instituições. E sem confiança institucional, nenhuma democracia se sustenta por muito tempo. Enquanto isso, a sociedade continua a pagar a conta de formas múltiplas e silenciosas: paga através de impostos elevados; paga através de serviços públicos deficientes; paga através da desigualdade crescente; paga através da erosão da confiança coletiva. Em outras palavras, o pato quase sempre é pago pelo cidadão comum, aquele que trabalha, produz, paga tributos e espera — muitas vezes em vão — que o Estado funcione como instrumento de justiça e desenvolvimento. A grande ironia é que, em muitos casos, os responsáveis diretos pelos escândalos acabam protegidos por estruturas de poder, disputas jurídicas intermináveis ou narrativas políticas cuidadosamente construídas. Assim, o peso do erro coletivo recai sobre aqueles que menos participaram dele. Talvez a questão mais profunda não seja apenas quem pagará o pato, mas por quanto tempo a sociedade continuará aceitando pagar essa conta sem exigir mudanças estruturais. Porque a história demonstra algo fundamental: quando a cidadania desperta e a consciência pública amadurece, sistemas aparentemente intocáveis começam a se transformar. E toda transformação política verdadeira nasce exatamente desse momento — quando a sociedade deixa de aceitar o papel de espectadora e assume, enfim, o papel de protagonista.

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