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Entre o Retrovisor e o Trem-Bala: a Pré-Campanha no Tempo das Redes

O deslocamento do poder comunicacional

Redação Folha Pantanal
Por: Redação Folha Pantanal Fonte: Adelino Alexandre Lopes - Literato - Folha do Pantanal
21/02/2026 às 15h45
Entre o Retrovisor e o Trem-Bala: a Pré-Campanha no Tempo das Redes
Adelino Alexandre Lopes -

Essa reflexão trás três dimensões que raramente aparecem juntas: consciência histórica; leitura crítica do presente e visão de futuro. Isso é exatamente o tipo de conteúdo que eleva o debate público - sem ruído, sem extremismo e com densidade cidadã. Nossa voz está cada vez mais verbalizada, nítida, autoral e reconhecível dentro do projeto #ecosdecidadania

A preservação da memória política é um dever democrático. - Povos que esquecem sua história tornam-se vulneráveis à repetição de erros e à manipulação de narrativas. Resgatar, valorizar e compreender o passado não é saudosismo: é consciência histórica. Contudo, quando a política passa a olhar apenas pelo retrovisor, deixa de construir o caminho adiante. E este é um dos dilemas centrais do nosso tempo eleitoral. Muito de positivo ocorreu em nossa trajetória política - conquistas sociais, avanços institucionais, experiências de governo, lideranças que marcaram épocas. Mas, enquanto parte do debate público permanece enredada em disputas do passado - ora idealizado, ora demonizado -, a locomotiva real da disputa eleitoral já não se move a vapor. Ela corre na velocidade do trem-bala das redes sociais.

A dupla pré-campanha: passado e velocidade - Hoje convivemos, de fato, com duas pré-campanhas simultâneas. A primeira ocorre nas mídias tradicionais: entrevistas, jornais, rádio e televisão. Nela predominam a trajetória, o currículo político, a comparação histórica, o legado administrativo. É uma pré-campanha mais lenta, reflexiva e institucional. Fala-se do que foi feito. A segunda ocorre nas redes sociais. Ali o tempo é instantâneo, emocional e contínuo. A narrativa é curta, repetida, simplificada e amplificada por algoritmos. Mobiliza-se identidade, pertencimento e sensação. Fala-se do que se sente. Não é apenas diferença de meio. É diferença de temporalidade política. Enquanto a mídia tradicional ancora-se na memória, as redes operam no presente permanente.

Quando o passado domina o debate - O problema não está em lembrar - está em permanecer. Há dois tipos de aprisionamento político no passado: o saudosismo positivo (“antes era melhor”); o saudosismo negativo (“tudo foi desastre”) Ambos impedem a pergunta essencial de qualquer eleição democrática: qual futuro queremos construir? Quando a disputa eleitoral se transforma em julgamento interminável do passado, o eleitor deixa de escolher projetos e passa a escolher versões históricas. E a política torna-se arqueologia retórica.

O deslocamento do poder comunicacional - A realidade é inequívoca: a formação de percepção política migrou. A agenda já não nasce apenas na imprensa. Nasce em redes, influenciadores, grupos digitais e comunidades virtuais. A reputação já não depende só de biografia. Depende de presença. A mobilização já não ocorre apenas em palanques. Ocorre em telas. Isso não significa que a história perdeu valor. Significa que a forma de traduzir a história mudou. Quem comunica apenas legado fala para o passado. Quem comunica apenas emoção fala para o instante. Nenhum dos dois, isoladamente, constrói futuro.

Como avaliar a pré-campanha no tempo das redes - Uma avaliação democrática madura precisa integrar quatro dimensões: Memória - trajetória, resultados e coerência histórica. Projeto - propostas, visão de país e capacidade de governar. Narrativa - clareza, presença e comunicação contemporânea. Conexão - identificação social e confiança percebida. A ausência de qualquer uma delas fragiliza a política.

História sem comunicação torna-se invisível. Comunicação sem história torna-se vazia.
Projeto sem conexão torna-se tecnocracia. Conexão sem projeto torna-se populismo.
O desafio do presente - O tempo eleitoral atual exige algo novo: a integração entre retrovisor, para-brisa e velocidade. A política precisa olhar o passado para aprender, o futuro para orientar, e o presente para comunicar. Sem memória, repete-se erro. Sem futuro, repete-se discurso. Sem comunicação, perde-se sociedade.

Conclusão - A pré-campanha que permanece apenas na nostalgia não alcança o eleitor contemporâneo. A que vive apenas na emoção digital não sustenta governança. Democracias maduras não escolhem entre passado e futuro. Elas transformam experiência em direção. O retrovisor é necessário. Mas é o para-brisa que mostra o caminho. E a sociedade — que já viaja em velocidade de rede - espera que a política também avance

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